quarta-feira, 19 de junho de 2013

A CULPA DAS MANHÃS


Que onda dos meus sucessivos mares afogou a imensa culpa das antigas manhãs?  

Eu rememorava o dia anterior e nada. Obrigações cumpridas. Crianças à escola, caminhada, trabalho duro até tarde da noite, correção de erros e negligências de minha diretora e da equipe. Dívidas pagas, nenhuma traição (nem à minha mulher, que bem merecia uma traiçãozinha), nenhum mal. Mas a culpa ali estava, espessa e indigesta, fazendo do meu corpo uma carga insuportável. Mas o dia tinha de começar. Era preciso encontrar ar, e eu o buscava com o esforço possível. Juntava meu corpo, pedaço a pedaço, ia tomando-me nas costas e me levava, ao café da manhã, ao trajeto para a escola das crianças e o mais. Cada ato, cada palavra dita, cada novo movimento, aos poucos amenizava a lembrança do nada que me culpava, e a vida podia enfim seguir.

Culpa, sobretudo uma culpa assim, que vem do nada, deve ser coisa de gente honesta, não?

Era um bom argumento a favor da minha honestidade. E naquela época era só culpa mesmo. Ainda não havia medo, nem mesmo medo de minha inocência ser punida. Talvez, isso sim, um desejo de punição. Algum sofrimento físico que pudesse me livrar do mal que não fizera. Ou (dúvida) do bem que deixara de fazer?

Já o medo, dominador e sufocante, veio anos mais tarde.

Houve também a angústia de três sonhos recorrentes. Acompanharam-me, noite a noite, alternando-se anos a fio. Mas também já se diluíram.

Sonho número um (a ordem não é de importância não. O sentimento tem a mesma intensidade, nos três): estou num hotel muito luxuoso, à beira-mar. Terminou meu prazo para a fase de apuração da reportagem, e não tenho uma informação sequer. Gastei uma grana da editora e vou voltar à redação sem ter feito nenhuma entrevista, nenhuma pesquisa, nada. O  sonho não especifica por que isso ocorreu. Não diz se eu não consegui nada, se eu simplesmente não soube o que fazer ou se eu vagabundeei o tempo todo em que estive no hotel. Tentando preencher, não sei se com a memória ou com minha deficiente lógica, alguns dados do sonho, parece-me que, embora o hotel seja à beira-mar, não fui nenhuma vez à praia, para não perder meu precioso tempo de trabalho. Na vida real, pelo menos, era assim. Depois de uma entrevista eu voltava ao hotel, revia as anotações, acrescentava o que faltava, deixava as informações mais claras, completava palavras anotadas às pressas (por medo de não as entender depois), e registrava aspectos do ambiente, cores das paredes, móveis e objetos que havia na sala, tom de voz e emoções do entrevistado. Tudo que pudesse me ajudar depois ao redigir o texto. Nesses momentos já se iam delineando também o título, os destaques do texto, as fotos que iriam ilustrá-lo. Se o texto ficasse bom, se a reportagem fosse importante, se as pessoas elogiassem, ninguém perceberia que eu era uma fraude.

Sonho dois: estou desempregado e alguém me chamou para um trabalho. É num jornal em que já trabalhei, mas cuja redação hoje está dominada por um grupo que não conheço, e que veio de outro estado. Eles são famosos, eu já não sou. Alguns deles sabem do meu passado, mas o desprezam.  Há um tom irônico na maneira como me tratam e me dão tarefas de terceira categoria, quando dão. E nunca me pagaram nada. As vezes esse sonho se passa numa grande redação, eu num canto, ninguém fala comigo. Outras vezes estou fora da redação, num ambiente cheio de arquivos, eu numa mesa apertada entre dois arquivos e nada para fazer. Outras ainda, trabalho, também sem receber – mas nunca reclamo, pois não quero que saibam que sou um fracassado -, numa redação cheia de gente num espaço pequeno, sem janelas, tentando fazer sobreviver uma publicação praticamente falida.

Sonho três: anos depois de formado, tenho de voltar à faculdade de psicologia. A administração da escola descobriu que, nos meus sucessivos trancamentos de matrícula, deixei de cursar algumas disciplinas. Tenho de fazê-las agora, sob pena de ter o diploma cassado. Percorro os corredores e escadas atrás de aulas em que, cansado, entediado e humilhado, ouço lições do que já sei e com o que não concordo.

E havia, como você certamente já percebeu, uma quase convicção de que eu era uma fraude. Desde criança, sempre que falavam da minha inteligência, da minha simpatia e de outros dons de prestígio, eu pensava comigo mesmo: mais um que se engana. Caramba, eu poderia ao menos me orgulhar por ter enganado mais um, mas nem tal talento, eu sabia, haveria em mim. Era sorte, era coincidência ter ocorrido o que motivou a falsa impressão – ou era apenas a mediocridade maior do outro que o levava a me julgar talentoso. A certeza da fraude me exigia um esforçado disfarce. Dava certo. Só eu mesmo sabia o bosta que era.

Suspeito que entre essas duas características – a certeza de ser uma fraude e o sentimento de culpa – há alguma conexão.

terça-feira, 18 de junho de 2013

MENTIRAS TERAPÊUTICAS


Impossível não mentir. Por trás de tudo o que sinto há um imperceptível preconceito que me faz ser injusto. E, talvez pior, por trás do que penso há um desejo, que me faz pensar torto. E aí, queira ou não, minto. Minto quando conto o que vi e vivi, e quando exponho minhas precárias teorias. Seleciono o que confirma minhas ideias e realiza meus desejos. Recordo o que recordo, não o que ocorreu, e, assim, o que quero que tenha ocorrido produz a mentira.

Por isso tento (nem sempre consigo) evitar nomes, sobretudo os de quem não está bonito em minhas memórias fotográficas. Nomeados injustiçados ficam sem defesa – ou você já viu um desmentido limpar o nome de alguém? 

E por que conto? Para rir, chorar e dividir dores e prazeres com você, e assim ficarmos menos sós.  Contar me faz bem. Drummond diz mais ou menos o seguinte: "Não me considero um escritor. Sou apenas uma pessoa que escreve. Que escreve porque tem de escrever, e que começou a fazê-lo para cuidar das necessidades da alma. Como uma psicoterapia sem divã. Mesmo porque nesse tempo não havia psicanalista em Minas".

Escrever sempre me foi terapêutico. Adolescente, eram cartas e cartas para amigos e amigas distantes, tios, tias, primos e avós – além das sobras de páginas dos meus cadernos de escola, quando escrevia para mim mesmo. Ajudava-me a sair da depressão e da confusão. E ainda ajuda.

Certa vez, já adulto, encontrei um caderno de escola dos meus 15 anos, se tanto, em cuja última página alinhei as "Razões para renunciar à Presidência do Grêmio Literário e Recreativo Filadélfia". Viajei por aquele rico momento do passado, recordando como o pequeno texto me ajudou a não renunciar, e a ressignificar e enfrentar melhor as pressões que sofria, a insegurança, as brigas com os professores, as decepções com colegas, a impotência, a solidão e o desamparo. O quanto meus escritos – e mais os derramados sambas-canções de sabor nelsongonçalviano e adelinomoreiresco que eu compunha na época – me ajudaram a tomar as primeiras grandes decisões da vida.

Fazer música – algumas delas até com certo grau de qualidade - tinha função semelhante. Na faculdade de psicologia tive dois anos de Estatística, e era, sabe-se lá por quê, a disciplina mais difícil do curso, com professores rigorosíssimos, empenhados a nos convencer de que, em matéria de psicologia, nada pode ser mais importante do que um desvio padrão, um teste de proporção ou um “fi” - não me pergunte o que é fi, por favor. Maluquices do nosso ensino, pois nem eu nem nenhum dos meus colegas nunca usou nada daquilo. Um dia tive uma briga feia com um dos professores, que cometera erros grosseiros na correção de uma prova minha (ele não conseguia entender meus rascunhos, feitos no verso da prova, e por isso anulou várias das minhas respostas. Deu-me um trabalhão explicar meus peculiares raciocínios que justificavam as respostas, todas corretas). Ganhei a briga, mas a raiva restante ainda era grande, e no dia da última prova compus uma marchinha que começava assim: "Adeus, Estatística, não quero mais te ver. Não sei como te aguentei dois anos, Estatística. Por mim, você pode morrer!". Ensaiei com alguns colegas, e cantamos no pátio para os professores. Saudabilíssima vingança.

Pois então, sigo por aí, me adoecendo e me curando...

segunda-feira, 17 de junho de 2013

NO LYRA PAULISTANA

1982 (acho). Eu cantando no Lyra Paulistana, como integrante de "Os Bandalheiros". com Paulo e Chico Caruso. Participaram o maestro e pianista Aluisio Pontes, as gêmeas Celma e Célia, Edinilton Lampião, Quebrado James, e ainda... ih, esqueci...Estou de pijama e sentado numa boia, porque me recuperava de uma cirurgia de hemorroidas. A foto é do Paulinho Abrão.
PROPOSTAS INDECENTES Dia 23 de maio de 2012, a bela fisioterapeuta me recebe com um sorriso, anunciando meu presente de aniversário: “Amanhã você faz 69, e vai ganhar uma massagem especial”. Pergunto: “Não pode ser o contrário?”. Ela me olha confusa: “Como assim, o contrário?”. “Ora, eu faço a massagem especial e ganho um 69!” Ela dá uma linda gargalhada, mas não leva a sério minha proposta, como seria previsível. Enfim, pelo menos eu tentei. Sim, eu estava brincando, mas, sabe-se lá, vai que a conversa segue por outro rumo? Ao peso dos 69 anos, me conformo, e, ainda mais tendo alguns problemas físicos que explicarei melhor mais à frente, boa parte da vida é feita de tentativas. Nem vou dizer que não devemos nos abater pelo insucesso delas (e aqui já não estou mais falando da conversa fisioterapêutica), pois vamos mesmo nos abatendo, debatendo, rebatendo, batendo e combatendo, ou não vivemos. Pois é, 69 anos, e os últimos dez aqui na ilha. Não todo o tempo, que eu não aguentaria. Sempre aceito propostas de trabalho que me levem a outros cantos por um tempo. E mesmo quando elas não surgem, dou minhas saídas para respirar outros ares, ver outras pessoas, cinema, teatro, shows, conversas. E também para periodicamente ver e ser visto pelos meus médicos na grande metrópole. Eles se alternam. Urologista, endocrinologista, geriatra, pneumologista, cardiologista, ortopedista, neurologista, angiologista, dermatologista, fisiatra, psiquiatra. Vou também para fazer inspeção veicular no carrinho que tenho lá, carrinho que me leva para ir ver meus netos e minha mãe, que moram mais ou menos na região. Fico num apartamentinho mínimo, de 28 metros quadrados (que levei 10 anos pagando, só pra ter – exatamente, se eu não engordar muito – um lugar para cair morto, como aconselhavam meus amigos), numa rua central de um bairro com nome de órgão do aparelho urinário, onde eu dormia ao som dos ensaios de uma grande escola de samba, das brigas de bêbados com suas bêbadas e, vez por outra, tiros e sirenes policiais. A área era dominada por cortiços, sex-shops e treme-tremes. Agora está sendo demolida e reurbanizada, cheia de belos novos edifícios, esvaziando-se do charme da pobreza e se povoando do charme burguês. O metro quadrado, nos últimos meses, teve seu valor quintuplicado. Meu gracioso predinho, antes um tanto constrangido em meio aos deteriorados casarões dos cortiços e ao imenso e à noite febricitante conjunto de treme-tremes, agora parece mais alegrinho, embora um tanto humilhado com a chegada de seus luxuosos e arrojados vizinhos. Eu adorava o jeitão anterior, a música sertaneja e o forró berrando nos fins de semana, a dança nas ruas, os travestis decadentes, a modesta marcenaria, a precária farmácia, o mercadinho-bazar, o mecânico, os peões pra tudo que me resolviam os problemas de encanamento, eletricidade e pequenos consertos domésticos. A debandada é geral, a demolição é geral, a metrópole está na undécima de suas infinitas reconstruções, e não perdoa. Como a Iracema do Ceará do Chico, terei saudade, mas não muita. Novos restaurantes, cafés, jardins e outras delícias burguesas preencherão meu tardio lado emergente e me confortarão, nas periódicas idas à metrópole. Na ilha, tenho um carro maior e mais alto, para enfrentar as ruas de terra, esburacadas, empoeiradas quando faz sol e inundadas e enlameadas quando chove. É aqui que escrevo. Minha casa tem quatro suites, geralmente vazias, mas minha solidão é periodicamente confortada pela presença dos amigos, filhos e netos, sobretudo nas temporadas de verão, quando eles vêm aproveitar as dezenas de praias, lagoas, dunas e trilhas de montanhas, outras ilhas, paisagens deslumbrantes, baleias, golfinhos, bons restaurantes de peixes, lagostas, camarões, mariscos, ostras, sushis e sashimis, ceviches, moquecas, caldeiradas. Meus netos brincam também no gramado, pesquisam insetos, correm atrás dos beija-flores, eventuais tucanos, borboletas e louva-a-deus, colhem frutos das árvores. Me fazem feliz. Ao longo do ano, quando na ilha, revezo-me da solidão para o amor – este mais nos fins de semana. Tenho fisioterapia todos os dias de semana (sábado e domingo, folga para namorar), e atualmente estou fazendo, conforme os ditames contemporâneos, não regime, e sim reeducação alimentar. Regime, só fiz uma vez na vida pra valer, com um médico judeu meu amigo – mas que comigo fingia ser nazista, para efeito do regime. Em quatro meses, baixei de 105 para 75 quilos. Hoje o nutricionista me explica que aquilo foi uma loucura, pois emagrecimento tão rápido avacalha todo o metabolismo e implica necessariamente em perda de massa magra, o que de forma alguma é recomendável. Deus me livre. Mas também não é fácil a tal de reeducação. Praticamente não se pode fazer outra coisa, pois são oito refeições por dia em horários determinados. Uma delas tem de ser 40 minutos antes da fisioterapia, outra um segundo depois da fisioterapia, outra meia hora depois. Qualquer outro compromisso, pois – de ir comprar as coisas para comer, por exemplo, bagunça tudo. Por isso, tenho direito a três furos por semana – ou seja, bagunçar só três refeições, em 56! Convenhamos que é muito pouco. Mas funciona (também, só faltava não funcionar, não é mesmo?). Fiz com a namorada uma viagem de seis dias à Espanha e apenas tentei não sair demais dos horários e ingredientes, no limite do possível. Pelo menos não engordei. Mas cumprir tudo direitinho é obviamente impossível. Ainda bem que o nutricionista é um moço benevolente, sangue 100% latino, peninsular, e até hoje não me lançou nenhuma imprecação maior. Nossa meta é eu emagrecer uns 2,5 quilos por mês. Meu plano secreto (não conte a ninguém) é chegar aos 70 anos com dois dígitos. Iria me deixar mais lépido, fagueiro e confortável na convivência com minha deficiência física. Quem viver verá.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Maria Nívea Magalhães, cadê você?

Nívea Pedro Saturnino "Papai precisa dedicar-me uns versos..." era o verso que sempre me dizia e eu, por motivos fúteis e diversos, nunca lhe pude dar essa alegria. Eu era venturoso, ---- e a fantasia e os meus sonhos andavam tão dispersos, que eu nem pensava nos floreios tersos, nos requintes e galas da Poesia. Mas... minha filha moça... bela... um dia... (Nós: pais e esposo em lágrimas imersos) maugrado as nossas orações... morria ! E eu ficava e fiquei, fados perversos, neste mundo... a escutar... numa agonia: "Papai precisa dedicar-me uns versos..." ------- Pedro, um grande e pouco lembrado poeta brasileiro, era pai de meu amado professor Almo Saturnino Vieira de Magalhães, a quem devo a maior parte do meu imenso amor pela língua portuguesa. Já Almo, também um talentoso poeta, pôde em vida receber um belo soneto em decassílabos, que começava assim (cito de memória): "Herdaste todos os meus dotes, Almo...". Era meu amigo. Esperava-me para virmos até minha casa conversando depois das aulas do Colégio Londrinense. Tinha dois belos filhos - a suave Maria Nívea (homenagem à tia) e o Alminho. Desde o final da década de 50 não soube mais deles, e adoraria ter notícias. Rebelde, comunista, perseguido na nossa reacionária Londrina da época, Almo se foi para o Rio, onde o Google me diz que há um colégio com seu nome. Almo tinha uma voz delicada, quase feminina. Certa vez, num bar da Rua Paranaguá, próximo à minha casa, fazia compras quando dois homens mexeram com ele, por causa dessa suavidade no jeito de falar. Almo passou a mão numa garrafa, pelo gargalo, quebrou o fundo na mesinha de mármore e gritou firme "podem vir, seus palhaços!". Os malandros afinaram. Alminho não se lembra de mim, certamente, pois era uma criança na época. Almo já deve ter nos deixado, pelo tempo que passou. Mas eu daria tudo para encontrar a Maria Nívea e saber do que se passou com meu grande mestre e com a família nestes tempos todos...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

PALESTRA RUY FERNANDO BARBOZA NA UNISUL (OBRIGADO, CINTHIA)

11/07/2012 PRATA DA NOITE
Memórias, polêmicas e conselhos do repórter Realidade .Em conversa com alunos de jornalismo da Unisul, o ex-repórter da revista Realidade Ruy Fernando Barboza conta histórias de derrota e vitória contra a censura por Cinthia Fraga, aluna do Curso de Comunicação Social da Unisul, SC "A figura quase insignificante daquele índio de pele escura assume uma grave imponência no palanque, os traços duros de seu rosto recortados contra o azul vivo do céu dos Andes.” Essa foi uma das frases do pequeno trecho de uma belíssima reportagem escrita por Ruy Fernando Barboza para a revista Realidade, em junho de 1972, lida pela professora Raquel Wandelli ao iniciarmos o encontro com esse experiente jornalista. O bate-papo aconteceu na terça-feira à noite do dia 8 de maio, no campus da Unisul Pedra Branca. A leitura de introdução serviu para mostrar quão sensível era o homem de cabelos grisalhos e sorriso fácil com quem iríamos conviver por quase três horas. Ruy Fernando Barboza é graduado em Direito e Psicologia, entretanto, trabalhou durante vários anos como jornalista em grandes veículos de comunicação, como no jornal Folha de S. Paulo, revistas Realidade, Quatro Rodas, Playboy, Nova e Veja. Também atuou em emissoras de rádio e televisão, além de implantar o curso de Comunicação Social da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná. Hoje Ruy mora no Campeche, em Florianópolis, mas viaja constantemente a São Paulo, onde mantém projetos com publicações nacionais. A experiência adquirida durante anos de trabalho serviram de base para contar várias histórias e situações vividas por Ruy. “Quero tentar aprofundar um pouco alguns momentos do que aconteceu nessa minha história que eu acho que podem ser importantes para quem está estudando jornalismo hoje. São histórias de outras épocas que eu trouxe para os alunos, mas vim também para ouvi-los.” Ruy revela que, na revista Quatro Rodas, de conteúdo automobilístico, ele sofreu várias pressões de grandes empresas de automóveis que tentavam censurar suas matérias. Quando era editor chefe da Playboy, tinha que lidar com a censura política e a sexual, mas conta que, apesar disso, a revista apresentava matérias com discussões políticas de alto nível, bastante aprofundadas, contando com autores de primeira linha e entrevistadores muito bons. Ruy trabalhou também na TV Justiça, mas foi por pouco tempo, pois demitiu algumas pessoas e encontrou muitos problemas por causa disso. Segundo ele, tinha inúmeros projetos, mas como não quis “entrar no esquema”, teve que sair. Nada, porém, se compara ao trabalho desenvolvido por Ruy na revista Realidade. Seus olhos brilham e sua expressão muda quando ele fala dessa época. “Na revista Realidade, tudo era feito coletivamente; trocávamos ideias, fazíamos as reuniões de pauta para decidir as matérias e os planejamentos. E o mais interessante ainda estava por vir: saíamos às ruas e às vezes encontrávamos coisas inesperadas e surpreendentes. Nessa época, nós tínhamos tempo para realizar as reportagens, dinheiro para os custos e autonomia para criar, mudar a pauta, aprofundar os assuntos.” Ruy conta que foi a melhor coisa que ele fez e depois dessa experiência, sabia que nunca mais sentiria o mesmo prazer. “Eu gostava de defender o meu trabalho, dava palpites na legenda das fotos, nos títulos das matérias, em tudo.” A revista Realidade foi realmente muito marcante para o jornalismo e para a vida de Ruy. Sentado em frente aos alunos, entre perguntas e respostas, ele sempre retoma essa época e parece muito leve ao contar suas histórias, rever imagens de capas da revista e lembrar-se de fotos, entrevistados e textos que apareceram nas reportagens. Ele se entristece ao falar de como a revista declinou. “A Realidade ia muito bem até que a Editora Abril resolveu fazer uma revista semanal para criar uma presença mais forte no mercado editorial, surgindo assim, a revista Veja.” Ruy conta que ficou pouco tempo no novo projeto porque não gostou do jeito que começaram a fazer jornalismo. Relata que, no início, a revista era produzida com jornalismo de verdade, mas que depois foi entrando capital estrangeiro e isso foi interferindo nas decisões políticas, econômicas e editoriais da revista. “Na Veja, você recebia a linha central da matéria e tinha que ir buscar coisas na rua para se encaixar naquela definição que já tinha sido feita. Eu não concordei com esse método e saí.” Surgiram, algum tempo depois, muitas revistas e jornais no Brasil com o espírito da revista Realidade, como a revista Retratos do Brasil, o Jornal Movimento, o Jornal Opinião, a revista Caros Amigos, entre outros. Atualmente, sempre que é possível, Ruy contribui para a Retratos do Brasil, que é uma revista de esquerda, como ele bem define, de caráter independente, que se utiliza de pouquíssimos anúncios publicitários e diferentemente da revista Realidade, com orçamento bem pequeno. Quando o bate-papo estava se encaminhando para o final, com alguns alunos já indo embora e o horário avançando, o jornalista cria certa polêmica ao dizer que é contra a exigência do diploma para jornalistas. Segundo Ruy, não há necessidade de curso superior, pois acredita que se pode aprender jornalismo na prática, assim como ele fez. Faz questão de esclarecer que não está desanimando os estudantes, nem dizendo que a passagem pela universidade não é importante, mas que para ele os cursos de jornalismo teriam melhor qualidade se o diploma não fosse obrigatório. Acredita que sem a exigência não haveria por parte dos alunos a busca pelo diploma e sim a procura por uma formação melhor, por qualificação, por aprimoramento pela profissão pela qual são apaixonados. Finalizando a noite, Ruy diz que a grande imprensa é dona de muita coisa e vai defender o capital sempre, mas que há espaços para fazer um jornalismo diferente. Acredita que as empresas querem vender, mas que não é fácil manipular as pessoas o tempo todo. “É preciso assumir responsabilidades, fazer análises, dizer o que está acontecendo, aprofundar, ser incansável na vontade de mudar. Tem que tentar, ousar! Jornalismo é a arte de dizer o que é, o que causou e a sua importância. Eu acredito que o espaço é maior do que a gente imagina, mas se aparecerem situações em que precisamos brigar, nós vamos brigar. Devemos mexer na realidade, meter a mão na história.” E é com essa enriquecedora conversa que nós, futuros jornalistas, fomos embora, levando na memória esse encontro nos sentindo, como disse Ruy, cada vez mais felizes e culpados, culpados de olhar para tudo de um jeito profissional, com um olhar diferente, com olhar de jornalista!

terça-feira, 11 de setembro de 2012

PEDRO: PRIMEIRO NADO

para quem ainda não sabe: meu neto pedro chegou dia 4 de setembro às 8h30, em maravilhoso e perfeito parto na água. seu primeiro nado foi nas mãos do meu filho saulo, que com genial precisão cortou o cordão, e as águas continuaram e continuam rolando dos nossos olhos, como rolaram da minha filha-nora judia russa viviane, linda yemanjá de calorosa neve tropical. mais que felicidade, mais que alegria, júbilo, júbilo incessante, total e absoluto, incessante e incontornável, meus olhos continuam em pleno orgasmo!salve, pedro, o meu pedro, seus 3.675 gramas de suave e forte beleza, beijos, beijos, beijos deste avô completamente imbecilizado!